Naquela tarde, o sol estava a pino; o calor, insuportável. Eu era o patrulheiro de uma guarnição tática. Nossa barca patrulhava a periferia. A viatura deslocava bem devagar, espremida numa viela; os retrovisores quase tocavam nos barracos.
De repente, a uns vinte metros do lado esquerdo da viatura, vejo um indivíduo correndo. A mente do policial já está condicionada: Se correu, é suspeito. Digo ao Cabo Luciano:
- Correu, correu! Pára! Um cara aqui ao lado saiu vazado quando viu a viatura.
Imediatamente, a viatura foi parada. Desembarcamos defronte a um barraco, onde, na entrada, encontrava-se uma menina de cerca de nove anos. Ela nos olhou assustada. Ao ser questionada, logo entregou que fora o pai dela quem havia evadido.
Sem demora, iniciamos as buscas num terreno baldio adjacente ao barraco. Cinco minutos e nada. O Sargento Augusto, comandante da guarnição, começou a gritar, blefando e fazendo pressão psicológica. Nada. De súbito, quando estávamos quase desistindo, o sargento viu o indivíduo deitado no chão. Imediatamente procedemos a abordagem verbal, determinando que ele colocasse as mãos na cabeça, se levantasse... Feita a busca pessoal, nenhum objeto ou substância ilícita foi encontrada.
Ainda no terreno baldio, no meio de um pequeno matagal, o indivíduo repetia e repetia que estava ali havia alguns minutos, vigiando uma galinha chocar. O Sargento Augusto insistiu em indagar por que ele havia corrido. O suspeito, um senhor de aproximadamente sessenta anos, rendeu-se aos questionamentos e assumiu que apenas havia se assustado ao ver a viatura. Ora, ninguém foge da polícia sem motivo. Era certo que ele estava devendo.
Fomos à sua casa. Se do lado de fora o barraco sem reboco e sem janela já não era bonito, no interior o cenário era ainda mais desolador. Apenas um cômodo, piso de cimento grosso cheio de buracos e todo sujo, roupas espalhadas pela casa, comida azeda no fogão e aquela menina de cabelos despenteados que não parava de chorar.
Reviramos a casa e nada. Alguma coisa estava errada. Ninguém corre à toa. O cara só podia estar pedido. O Sargento Augusto perguntou ao suspeito se ele era foragido. Ele tremeu. Tentou se esquivar da resposta, mas em seu semblante podíamos ver que fora esse o motivo de ele ter corrido. Para confirmar, o sargento consultou o prontuário criminal do indivíduo no COPOM. O despachante pediu para repetir o nome. A resposta veio confirmando o tirocínio policial. O sujeito era fugitivo da cadeia pública da cidade, onde cumpria pena por homicídio culposo.
O indivíduo não parecia ser perigoso, pelo contrário. Perguntei-lhe sobre o motivo de ele ter sido condenado e ter fugido da prisão. Assim ele me respondeu:
- Foi uma tremenda falta de sorte. Eu estava na igreja com minha esposa, que na época estava grávida dessa menina. Chegou um cidadão embriagado com um pedaço de pau na mão e começou a xingar todo mundo, reclamando do som alto. Minha esposa foi conversar com ele, pedindo calma, mas ele tratou ela com falta de respeito e tentou agredir ela. Eu não aceitei, nós brigamo, eu tomei o pedaço de pau e dei na cabeça dele. Por azar, ele tinha platina na cabeça e morreu. Eu fui preso. Minha esposa morreu no parto da menina. Quando o juiz me deu benefício do dia das mães, eu não voltei pra cadeia. Tinha que cuidar da menina e dos outros dois que ainda estavam pequenos. Tem mais de cinco anos que eu tava foragido. Agora os senhores me pegaram. Eu sou trabalhador, faço tudo pelos meus filhos. Minha filha mais velha tem dezesseis anos e começou a trabalhar ontem em um salão de beleza pra me ajudar a cuidar dessa menina e do outro menino. O senhor tá vendo a casa assim, mas é porque eu não tenho tempo. Sou pedreiro, trabalho o dia inteiro. Meus vizinhos que tomam conta da menina quando tô trabalhando. Eu sou trabalhor, Seu Polícia.
O indivíduo realmente parecia trabalhador. Inclusive os vizinhos foram unânimes em dizer que ele só vivia para os filhos, que era um bom pedreiro e que era honesto. Antes de o colocarmos dentro da viatura, ele tirou uma nota de cinquenta reais e disse para a filha:
- Toma. É o dinheiro que o pai tem.
A garotinha se pôs aos prantos, começou a me puxar e disse:
- Por favor, moço, não leva meu pai, não. Eu já perdi minha mãe; como que vou ficar sem meu pai agora.
Meu coração quase partiu; me deu um nó na garganta. Mas não tínhamos escolha e, mesmo se tivéssemos, não sei...
Em seguida, nos dirigimos à delegacia, onde o foragido voltou para trás das grades. Talvez aquele não fosse o seu lugar. Tudo indicava que ele nunca mais iria cometer nenhum crime. Mas não cabe a nós policiais militares fazer julgamentos. Apenas cumprimos a letra fria da lei.
Às vezes, me recordo dessa ocorrência e penso se a justiça não é falha, se a lei não é fria demais. Quem errou deve ser punido, mas vendo tantos bandidos se beneficiando de lacunas legais, reflito se o certo seria aquele homem ter voltado para a prisão. Reflito sobre o que representou e representará para a menina, daquele momento em diante, o tom azulão da nossa farda, já que, apesar da obrigação de cumprir o nosso dever, talvez retiramos dela a única chance de chegar a algum objetivo na vida e quiçá de matar a sua fome e a dos seus irmãos a partir daquela tarde.

Soldado, realmente existem questões difíceis de serem arrozoadas nesta vida. O mal e a injustiça abundam neste mundo. Há quem diga (e tem tudo para estarem corretos) que as guerras, os conflitos dos mais diversos tipos, o terrorismo, as crises globais, as epidemias, os novos virus, a persistente miséria e pobreza em muitos lugares, etc, etc, são cuidadosamente planejados por uma elite mundial que governa o mundo secretamente e que tem um objetivo diabólico. Barak Obama e companhia ltda. não passam de fantoches nas mãos desta elite. Li em algum lugar as palavras de um cientista que dizia que o mundo podia ser comparado a uma locomotiva descendo uma montanha em alta velocidade. A grande maioria das pessoas está no último vagão olhando para trás. Uma pequena elite está na cabine, e o maquinista é muito provavelmente o demônio. A velha Bíblia diz que o mundo jaz no maligno, e uma injustiça particular localizada como a que descreveste, é apenas reflexo do que acontece diariamente a nível global. Por exemplo, o mundo produz muito mais alimentos do que é necessário para o consumo da população mundial, mas milhares de crianças morrem de desnutrição todos os dias. Estraga-se muito mais alimentos do que se consome. Muitos cães tem assistência médica e alimentação de primeira qualidade, enquanto milhares de seres humanos morrem por causa de uma gripe. Há sim muita coisa errada nesse mundo. E muitas vezes somos ágeis em jogar toda a culpa para Deus. Mas será que temos respaldo suficiente para isso? Afinal, somos seres dotados de consciência e vontade. Será que estamos fazendo a nossa parte para amenizar os sofrimentos do outro? Por exemplo, o tom caqui da farda poderia representar para aquela criança a materialização do terror, mas uma visitinha repentina com um presentinho de fim-de-ano, embora jamais suficiente para amenizar a dor da ausência do pai, faria toda uma diferença na psique da pequena.
ResponderExcluirSoldado, a tua história tem muito pano pra manga. Poderíamos discutir sobre o amor, sem o qual o sofrimento daquele pai não existiria. Mas embora o amor possibilite o sofrimento, sem ele a vida não valeria a pena. Poderíamos discutir sobre a aparente ausência de Deus diante das mazelas e injustiças do mundo, ao passo que Jesus O apresentou como um Deus Abconditus, disfarçado de mendigo, preso, faminto, carente (Mateus 25.35-40).
Mas, para concluir, não devemos esquecer que a vítima da mais célebre injustiça jamais cometida neste mundo foi o Carpinteiro de Nazaré, o único perfeito em tudo quando disse e fez. Por inveja e interesses medíocres, seres humanos penduraram numa cruz cruel o Criador do universo encarnado.